A obsessão pelo céu fez os dois voarem.
Caíram várias vezes, como é das pessoas voarem e caírem, mas construíram no céu e também no mar um esconderijo, onde se encontravam para afastar as mentiras e livrar-se das constantes ameaças feitas pelo mundo.
Muito obrigado. Valeu a pena cada pena caída, volte a construir suas asas.
E voe, Paloma.
domingo, 28 de novembro de 2010
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Cadeiras Vazias.*
Sete dias. Quem diria.
Este desenho mal feito não foi preenchido e nem será tão cedo. Acostuma-se então com os roteiros já vividos, músicas inglesas e brasileiras, pois é tudo que vai ter.
Aliás, você ganhou cadeiras vazias te perseguindo por onde quer que vá. Sofás gritando silêncio, cadeiras metálicas, de madeira, século XVIII. Todas vazias. Todas rindo. Todas dizendo que tem que conseguir alguém pra te acompanhar, é perigoso sair assim, mas nenhuma propondo a te acompanhar.
--
E todos perguntam dela. Eu simplesmente não sei dela. Faz tempo que não sei dela. Ela vem, senta na minha frente, chora, pede desculpa e sai. Nada é profundo entre nós. Eu fico esperando a próxima vez. Aliás, na verdade quem fica sentada é ela. Quem vai sou eu, sempre esqueço de algo, volto. Ela pergunta se desisti de desistir. Digo que só fui pegar a toalha, deixei jogada na cama. Ela volta a chorar. E pede desculpa por algo que não fez, ou fez, ou algo que pensou e não disse, e queria ter dito, talvez. Em segundos ela esconde tudo isso que fiz, tua roupa fica suja, todos perguntam o que é, disfarça dizendo que foi pimenta, ou algo assim. Vai ao banheiro, chora. Volta, ri. Fala comigo, ri e chora. Daqui pra frente vai melhorar, todos os dias. Mas daqui pra frente vai melhorar. Daqui. Daqui. Daqui.
--
Não perguntem de mim. Saí faz tempo, não sei se volto. Tranquei as janelas também. Dizem que quando o vento sopra a cortina as pessoas veem, e ríem. Como se contorce. Que martírio falso. É tão feliz e se faz dessa lástima. Desse lado da janela acontece o mesmo. Como deslizam. Que felicidade torta. São tristes e vendem sorrisos. E quando o lado de dentro se choca com o de fora,ninguém fala nada. Damos as mãos, rezamos, dançamos, falamos sobre músicas, religão e drogas. Como são ruins.
Este desenho mal feito não foi preenchido e nem será tão cedo. Acostuma-se então com os roteiros já vividos, músicas inglesas e brasileiras, pois é tudo que vai ter.
Aliás, você ganhou cadeiras vazias te perseguindo por onde quer que vá. Sofás gritando silêncio, cadeiras metálicas, de madeira, século XVIII. Todas vazias. Todas rindo. Todas dizendo que tem que conseguir alguém pra te acompanhar, é perigoso sair assim, mas nenhuma propondo a te acompanhar.
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E todos perguntam dela. Eu simplesmente não sei dela. Faz tempo que não sei dela. Ela vem, senta na minha frente, chora, pede desculpa e sai. Nada é profundo entre nós. Eu fico esperando a próxima vez. Aliás, na verdade quem fica sentada é ela. Quem vai sou eu, sempre esqueço de algo, volto. Ela pergunta se desisti de desistir. Digo que só fui pegar a toalha, deixei jogada na cama. Ela volta a chorar. E pede desculpa por algo que não fez, ou fez, ou algo que pensou e não disse, e queria ter dito, talvez. Em segundos ela esconde tudo isso que fiz, tua roupa fica suja, todos perguntam o que é, disfarça dizendo que foi pimenta, ou algo assim. Vai ao banheiro, chora. Volta, ri. Fala comigo, ri e chora. Daqui pra frente vai melhorar, todos os dias. Mas daqui pra frente vai melhorar. Daqui. Daqui. Daqui.
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Não perguntem de mim. Saí faz tempo, não sei se volto. Tranquei as janelas também. Dizem que quando o vento sopra a cortina as pessoas veem, e ríem. Como se contorce. Que martírio falso. É tão feliz e se faz dessa lástima. Desse lado da janela acontece o mesmo. Como deslizam. Que felicidade torta. São tristes e vendem sorrisos. E quando o lado de dentro se choca com o de fora,ninguém fala nada. Damos as mãos, rezamos, dançamos, falamos sobre músicas, religão e drogas. Como são ruins.
sábado, 6 de novembro de 2010
Sobre o nada.
O tinteiro caiu de novo.
O destino parece não querer que eu escreva.
- 'Lá vai. Se queixar da vida. Bom emprego, confidente mulher, família estruturada.'
Devo ter um espelho muito torto.
Despejo pessoas, convivo com gente que recebe de mim e você para ficar com medo.
As desculpas vêm em ritmo frenético, a cada noite e a cada manhã o 'bom dia' está cada vez mais sádico. Desconfia saber o que é ter tudo isso em mim, o que é perceber estar sozinho com todos os seus fantasmas por aí e concorda com o destino. Se queixar demais talvez seja tua principal arma.
O que os vizinhos sabem não é o que se passa além da porta de entrada.
Eu vou desistir. Obrigado.
O destino parece não querer que eu escreva.
- 'Lá vai. Se queixar da vida. Bom emprego, confidente mulher, família estruturada.'
Devo ter um espelho muito torto.
Despejo pessoas, convivo com gente que recebe de mim e você para ficar com medo.
As desculpas vêm em ritmo frenético, a cada noite e a cada manhã o 'bom dia' está cada vez mais sádico. Desconfia saber o que é ter tudo isso em mim, o que é perceber estar sozinho com todos os seus fantasmas por aí e concorda com o destino. Se queixar demais talvez seja tua principal arma.
O que os vizinhos sabem não é o que se passa além da porta de entrada.
Eu vou desistir. Obrigado.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
O céu ainda existe.*
Mas é que estávamos sublimando. Eu mal podia identificar o que era nuvem, o que era eu.
Via apenas a vontade implícita de deixar de sufocar, de deixar voar sem o peso de alguém que mal sabe se é, de permitir perder-se nesses imensos campos sem a covardia de alguém que não sabe andar.
Não é nada a teu respeito. Também não é ao meu. Mal sei se ainda o tenho. É deixar os caminhos andarem por si, sem nenhuma ideologia comprada, como a que somos obrigados a viver morrendo. É encarar o amor, cháma-lo à defesa; se ele realmente existe.
Disseram-nos que seríamos felizes assim que a tempestade passasse, mas o porto já funciona há quase um ano e mal teve a chance de sair de casa. Essas vigas que me sustentam estão prestes a desmoronar e eu apenas não quero te ver ferida.
Por isso. É por isso que eu peço que vista suas asas. Pergunte-se realmente se é isso que quer. Ficar presa por telhados velhos.
Existem milhões de casas, também na orla. Bem mais brilhantes, bem mais seguras.
Via apenas a vontade implícita de deixar de sufocar, de deixar voar sem o peso de alguém que mal sabe se é, de permitir perder-se nesses imensos campos sem a covardia de alguém que não sabe andar.
Não é nada a teu respeito. Também não é ao meu. Mal sei se ainda o tenho. É deixar os caminhos andarem por si, sem nenhuma ideologia comprada, como a que somos obrigados a viver morrendo. É encarar o amor, cháma-lo à defesa; se ele realmente existe.
Disseram-nos que seríamos felizes assim que a tempestade passasse, mas o porto já funciona há quase um ano e mal teve a chance de sair de casa. Essas vigas que me sustentam estão prestes a desmoronar e eu apenas não quero te ver ferida.
Por isso. É por isso que eu peço que vista suas asas. Pergunte-se realmente se é isso que quer. Ficar presa por telhados velhos.
Existem milhões de casas, também na orla. Bem mais brilhantes, bem mais seguras.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
A tatuagem.
Travado no tempo, passou a ser escravo do chá das seis. Não pode sair da tua mesa, cheia de pessoas vazias trocando lugares a todo tempo. Não dorme, se troca rápido. A velha camisa xadrez está rasgada, não há tempo pra trocar os sapatos. A mesa está suja, mas não o suficiente. É preciso mais chá. Ficou assim de tanto servir à sociedade. De tanto se disponibilizar aos outros. 'Fez tanto chapéu que o mercúrio passou ao cérebro'. Diziam os senhores engravatados e as senhoras e seus cães inúteis. Nunca souberam que na verdade, o que possuía dentro de si era tão grande que sobrecarregava-lhe a cabeça. Criava chapéus das mais variadas cores e formas, até ficar sem onde pôr. Passou a vendê-los. E passaram a comprá-los. De maneira cada vez mais compulsiva. O seu amor era tão grande, tua criatividade tão imensa que continuou a fazer, sem perceber que não se importavam com o que sentia, com o que significava aquele monte de pano, aquele monte de fitas, aquele monte de cores. Tua vida passou a ser automática. Não havia tempo para cultivar o que era realmente, o que podia fazer. Era parte de um ritual sadomasoquista, consequência de uma causa alheia a tua vontade. Não era mais. Os chapéus se acabaram, tua tesoura está cega, teus botões não mais cabem e tuas calças estão curtas. O vício que tinha deu lugar ao vício que lhe impuseram ao longo do tempo. Entre as visitas, os clientes, o chá. A frequência foi substituindo tua paixão por algemas quentes, erva-doce, ou mate detro de porcelana fina e biscoitos. Tudo que existia dentro de si foi tirado ou voou com os chapéus. Para preenchê-lo, então [na verdade, para se autopreencherem, pois a bondade nada mais é que compaixão e isso é vazio em mais bruta forma], fizeram se sentir útil de novo.
Servindo chá. Sendo uma história para ser contada.
Um servidor.
Servindo chá. Sendo uma história para ser contada.
Um servidor.
E se um dia puder me ver, acene.*
A futilidade de todos os dias tem sido tão incrível que às vezes me passo despercebido.
Simplesmente não me vejo. Muitas vezes não me ouço. E todo dia sinto.
Não me passa pela cabeça nem a vontade de escrever. É como se meu pensamento fosse tão contraditório, que meus dedos se recusassem a pôr em papéis. Sujos, reutilizados. A carta que eu esqueço de mandar, o telefone que esqueci de ligar, o texto que não li, a letra que não escrevi, a imagem que não vi. E quando consigo enfim esboçar algo, apago inutilmente, ficando aquele monte de madeira em pó suja de carbono inútil.
São tantas as desculpas. As mentiras. As verdades constrangidas por dias que surgem, sem ninguém pedir. E eu não consigo. Não dá pra pedir pro sol deixar de raiar ou a verdade deixar de vir.
A maneira é se adaptar. Os dias vão passar, os amigos vão te deixar, o amor vai desabar.
Não que isso seja tristeza inata.
A natureza é assim. A flor murcha, chove, molha, morrem, nascem, partem, chegam.
Sem nunca perguntarem se você existe.
Aliás,
Simplesmente não me vejo. Muitas vezes não me ouço. E todo dia sinto.
Não me passa pela cabeça nem a vontade de escrever. É como se meu pensamento fosse tão contraditório, que meus dedos se recusassem a pôr em papéis. Sujos, reutilizados. A carta que eu esqueço de mandar, o telefone que esqueci de ligar, o texto que não li, a letra que não escrevi, a imagem que não vi. E quando consigo enfim esboçar algo, apago inutilmente, ficando aquele monte de madeira em pó suja de carbono inútil.
São tantas as desculpas. As mentiras. As verdades constrangidas por dias que surgem, sem ninguém pedir. E eu não consigo. Não dá pra pedir pro sol deixar de raiar ou a verdade deixar de vir.
A maneira é se adaptar. Os dias vão passar, os amigos vão te deixar, o amor vai desabar.
Não que isso seja tristeza inata.
A natureza é assim. A flor murcha, chove, molha, morrem, nascem, partem, chegam.
Sem nunca perguntarem se você existe.
Aliás,
terça-feira, 20 de julho de 2010
Nunca deixe a felicidade pra depois.
Nunca pense que aos vinte e tantos poderá ser feliz. Não vale a pena "sofrer agora" para colher os frutos depois. Tente sempre conciliar os dois momentos: " o que você precisa fazer" e "o que tem de ser feito".
Ano passado me reuní com meus melhores amigos umas cinco vezes. Umas delas foi em minha despedida, dois deles já estavam namorando, uma tinha se expandido de tal forma que nem mais coube em mim, a outra já não me via.
'Agora você pode fazer o que quiser, Vítor. Acorda e para.'
Mentira.
Existem pessoas que controlam. Existem pessoas que são controladas. Existem pessoas controladas que controlam pessoas.
Então aquela tua liberdade pela qual lutou tanto para conquistar e aquela independência que você tanto queria conseguir não existem.
São filmes em sépia de uma história já prevista porqualquer varão de dezesseis. As promessas de felicidades feitas para mim foram desastrosamente infundadas.
O reflexo desse espelho me mostra alguém que já não se relaciona com ninguém. Preso em um lugar cujas paredes não existem, cujas algemas são de plástico e o escuro invisível. Minhas visitas se derretem em beijos intercalados a cada mês.
Estou cansado de estar onde estou, como estou, dizendo desculpas que não são minhas.
Quero ser feliz, preciso ser feliz.
E vou ser.
Nunca pense que aos vinte e tantos poderá ser feliz. Não vale a pena "sofrer agora" para colher os frutos depois. Tente sempre conciliar os dois momentos: " o que você precisa fazer" e "o que tem de ser feito".
Ano passado me reuní com meus melhores amigos umas cinco vezes. Umas delas foi em minha despedida, dois deles já estavam namorando, uma tinha se expandido de tal forma que nem mais coube em mim, a outra já não me via.
'Agora você pode fazer o que quiser, Vítor. Acorda e para.'
Mentira.
Existem pessoas que controlam. Existem pessoas que são controladas. Existem pessoas controladas que controlam pessoas.
Então aquela tua liberdade pela qual lutou tanto para conquistar e aquela independência que você tanto queria conseguir não existem.
São filmes em sépia de uma história já prevista porqualquer varão de dezesseis. As promessas de felicidades feitas para mim foram desastrosamente infundadas.
O reflexo desse espelho me mostra alguém que já não se relaciona com ninguém. Preso em um lugar cujas paredes não existem, cujas algemas são de plástico e o escuro invisível. Minhas visitas se derretem em beijos intercalados a cada mês.
Estou cansado de estar onde estou, como estou, dizendo desculpas que não são minhas.
Quero ser feliz, preciso ser feliz.
E vou ser.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Stand up
De tanto fugir de mim acabei não sendo eu.
Abandonei-me de tal forma que hoje posso ver a vermelhidão atingindo o ferro da minha pele e o máximo que faço é rir.
Não estou disposto a voltar pra dentro dessa armadura.
--
Cansei de ver sempre as mesmas coisas, de viver as mesmas amizades, de amar os mesmos namoros, escrever as mesmas linhas. Aliás, creio que se juntar tudo que escrevi até hoje não consigo preencher uma frase, de tanta redundância.
Creio que todos deveriam fazer isso: Assistir aos olhos por seus olhos. Quando você consegue se enxergar você vê o quão patético é, sente realmente quem está a seu lado e
-
Bem, na verdade você enxerga que você é sozinho. Tenta disfarçar um sorriso dentro de uma baforada de cigarro, ou escondido no barulho no vento, mas percebe que realmente ninguém está disposto a ocupar aquilo que você determinou como vazio. E isso nem é por egoísmo, é por que TODAS as pessoas querem preencher a mesma lacuna e se deixarem de ocupar o próprio lugar não conseguem nunca ser um par.
-
De qualquer forma, aquele corpo que estamos assistindo morrer nunca teve um ápice, nunca dedicou-se a si. Sempre viveu para outras almas. Por isso acabou assim. Não houve espaço para tanto amor. Não equilibrou o que queria com o que queriam que quisesse. E terminou tentando escapar desse destino trágico que lhe estava traçado.
E cá estou eu, do lado de fora.
Arrependimento? Sei lá. Talvez nunca estive realmente ali dentro. Talvez nunca houve uma só pessoa ocupando aquele espaço. É tudo tão confuso.
E engraçado.
Abandonei-me de tal forma que hoje posso ver a vermelhidão atingindo o ferro da minha pele e o máximo que faço é rir.
Não estou disposto a voltar pra dentro dessa armadura.
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Cansei de ver sempre as mesmas coisas, de viver as mesmas amizades, de amar os mesmos namoros, escrever as mesmas linhas. Aliás, creio que se juntar tudo que escrevi até hoje não consigo preencher uma frase, de tanta redundância.
Creio que todos deveriam fazer isso: Assistir aos olhos por seus olhos. Quando você consegue se enxergar você vê o quão patético é, sente realmente quem está a seu lado e
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Bem, na verdade você enxerga que você é sozinho. Tenta disfarçar um sorriso dentro de uma baforada de cigarro, ou escondido no barulho no vento, mas percebe que realmente ninguém está disposto a ocupar aquilo que você determinou como vazio. E isso nem é por egoísmo, é por que TODAS as pessoas querem preencher a mesma lacuna e se deixarem de ocupar o próprio lugar não conseguem nunca ser um par.
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De qualquer forma, aquele corpo que estamos assistindo morrer nunca teve um ápice, nunca dedicou-se a si. Sempre viveu para outras almas. Por isso acabou assim. Não houve espaço para tanto amor. Não equilibrou o que queria com o que queriam que quisesse. E terminou tentando escapar desse destino trágico que lhe estava traçado.
E cá estou eu, do lado de fora.
Arrependimento? Sei lá. Talvez nunca estive realmente ali dentro. Talvez nunca houve uma só pessoa ocupando aquele espaço. É tudo tão confuso.
E engraçado.
domingo, 18 de abril de 2010
Punhal.
Sempre passo em frente à vitrine.
Sempre vejo o mesmo manequim. Aqueles seus olhos tristes e incômodos; suas mãos frágeis, finas feito galhos secos; seu semblante pálido, sua frieza em dias de calor e sua carência de admiração prendiam-me feito a presa mais fútil da aranha-viúva.
Sempre quis criar uma música para o suporte de roupas. Algo que me contasse o porquê de tanta vida, algo que me dissesse o porquê daquelas peças preto e branco lhe sobrevestindo, me explicasse a ausência do cigarro em sua mão, teu silêncio vazio perante um vidro frágil.
Sempre quis enxergar nela o que mais faltava em mim, dar a ela o que me sobrava.
De certa forma, fazíamos isso.
Ficava toda noite, após o trabalho, admirando seu jeito de 'deixa estar', 'deixe vir'.
E estava, e ia.
As pessoas passavam, os cachorros latiam, os gatos corriam mas eu permanecia estável à tua sinceridade. Quando as estrelas se dissipavam junto ao claro do céu, pensava em minha necessidade de me despedir, e ela sequer resistia, sabia que voltaria no reaparecer das luzes dos postes.
E de fato.
Houve um dia que já não estava lá. Desesperado, batia a parede que me separava de sua mudez, parte dos estilhaços se prenderam a mim e parte deles se dissiparam ao sangue no chão. Um homem apareceu, assustado, dizendo que não tinha mais dinheiro no caixa. Apenas perguntei onde estava. Não houve resposta. Onde está o manequim?Gritei. A figura, confusa, permanecia com seu rosto suado sem reconhecer a pergunta. O manequim que estava na vitrine, onde está? A resposta veio gaguejada. To-tornou-se pó; sua idade evidenciava as imperfeições e precisávamos de novas peças para carregar coleção outono-inverno.
Não houve tempo de dizer mais nada. Corri. Pontes, estradas, vielas e favelas. Nada me reconhecia. Não reconhecia nada. Parei diante de um rio, percebi um olhar familiar.
Voltei.
Com calma, perguntei ao rapaz quando havia acontecido o desmanche da peça de mármore, já que nos encontrávamos no final de julho.
- Início de março. Disse o varão ainda com medo.
Atordoado, sentei no mesmo lugar onde costumava ficar observando o manequim.
O único pedaço de vidro que se manteve preso à parede me explicou tudo.
Nunca havia existido manequim.
Minha necessidade de ter alguém em quem confiar, onde minhas mentiras podiam se tornar verdades cruas, cujo silêncio era minha maior orquestra.
Minha vontade de te ter, te fez nascer.
Obrigado. Parabéns.
Sempre vejo o mesmo manequim. Aqueles seus olhos tristes e incômodos; suas mãos frágeis, finas feito galhos secos; seu semblante pálido, sua frieza em dias de calor e sua carência de admiração prendiam-me feito a presa mais fútil da aranha-viúva.
Sempre quis criar uma música para o suporte de roupas. Algo que me contasse o porquê de tanta vida, algo que me dissesse o porquê daquelas peças preto e branco lhe sobrevestindo, me explicasse a ausência do cigarro em sua mão, teu silêncio vazio perante um vidro frágil.
Sempre quis enxergar nela o que mais faltava em mim, dar a ela o que me sobrava.
De certa forma, fazíamos isso.
Ficava toda noite, após o trabalho, admirando seu jeito de 'deixa estar', 'deixe vir'.
E estava, e ia.
As pessoas passavam, os cachorros latiam, os gatos corriam mas eu permanecia estável à tua sinceridade. Quando as estrelas se dissipavam junto ao claro do céu, pensava em minha necessidade de me despedir, e ela sequer resistia, sabia que voltaria no reaparecer das luzes dos postes.
E de fato.
Houve um dia que já não estava lá. Desesperado, batia a parede que me separava de sua mudez, parte dos estilhaços se prenderam a mim e parte deles se dissiparam ao sangue no chão. Um homem apareceu, assustado, dizendo que não tinha mais dinheiro no caixa. Apenas perguntei onde estava. Não houve resposta. Onde está o manequim?Gritei. A figura, confusa, permanecia com seu rosto suado sem reconhecer a pergunta. O manequim que estava na vitrine, onde está? A resposta veio gaguejada. To-tornou-se pó; sua idade evidenciava as imperfeições e precisávamos de novas peças para carregar coleção outono-inverno.
Não houve tempo de dizer mais nada. Corri. Pontes, estradas, vielas e favelas. Nada me reconhecia. Não reconhecia nada. Parei diante de um rio, percebi um olhar familiar.
Voltei.
Com calma, perguntei ao rapaz quando havia acontecido o desmanche da peça de mármore, já que nos encontrávamos no final de julho.
- Início de março. Disse o varão ainda com medo.
Atordoado, sentei no mesmo lugar onde costumava ficar observando o manequim.
O único pedaço de vidro que se manteve preso à parede me explicou tudo.
Nunca havia existido manequim.
Minha necessidade de ter alguém em quem confiar, onde minhas mentiras podiam se tornar verdades cruas, cujo silêncio era minha maior orquestra.
Minha vontade de te ter, te fez nascer.
Obrigado. Parabéns.
domingo, 11 de abril de 2010
Sol.
Eu era areia.
Na verdade ainda sou.
Aqui dentro é escuro. O que escrevo são os únicos feixes de luz que surgem contra meu rosto. Os acordes que formo com meus dedos finos são a única forma de reconstruir pessoas ao meu lado.
A saudade é tanta.
Minha voz, apertada por cordas vocais estreitas, é reduplicada quando grito. O eco me faz pensar que não estou só, que realmente existe um abraço sobre mim. Algo que não me faça tremer tanto, me machucar tanto.
Algo que exista.
Na verdade ainda sou.
Aqui dentro é escuro. O que escrevo são os únicos feixes de luz que surgem contra meu rosto. Os acordes que formo com meus dedos finos são a única forma de reconstruir pessoas ao meu lado.
A saudade é tanta.
Minha voz, apertada por cordas vocais estreitas, é reduplicada quando grito. O eco me faz pensar que não estou só, que realmente existe um abraço sobre mim. Algo que não me faça tremer tanto, me machucar tanto.
Algo que exista.
sábado, 20 de março de 2010
Já não posso mentir.
Essas palavras que jogaram em cima da mesa de um bar, essas desculpas que tacaram na brisa do mar, já não se mantêm dentro de um corpo.
E eu não sei como agir. Algo me tira as cordas vocais quando canto, e me decepa os dedos quando escrevo.
Meus olhos já não são capazes de compreender o que se passa dentro de mim. Meus ouvidos já não são suficientes para escutar a quantidade de vozes que ecoa em minha cabeça. Minhas mãos me escapam quando necessito de um toque. E tudo que eu preciso é algo que não sei se existe.
A falta do que eu quero me deixa sem saber discutir sobre sua essencialidade. Até em meus sonhos as perguntas vêm com respostas erradas.
O palácio que contruí caiu e, embora tenha os tijolos necessários para seu retorno, não há mãos suficientes para levantá-lo em tempo ágil.
Há apenas um guri fraco e seu lápis, sem saber pra onde fugir.
domingo, 17 de janeiro de 2010
fauno.
Não é falta de vontade de escrever.
Também não me falta lápis e meus cadernos continuam empilhados dentro de mim.
Mas é que me sinto tão perdido. Me sinto fora de mim em todo lugar que vá. Mesmo em casa, me sinto deslocado. Não consigo me envolver nas palavras de ninguém, nada mais me surpreende. Os filmes se tornaram entediantes, os livros me ignoram a cada dia, o pôr do sol se queima antes de mim e a lua mal aparece no reflexo dessas ruas sujas.
Não que eu não me interesse. Eu procuro, tento me encontrar em cada viela, mas tudo que eu acho são mentiras, são tentativas forçadas de se envolverem em determinada raça, de se encaixarem em mais uma gaveta. Penso que tudo ao meu redor é virtual. Tudo muito simples e complexo a ponto de passar despercebido por olhos abertos.
Ligo-me então nas trivialidades. O suor que escorre, a lágrima contida, a formiga que tenta sobreviver ao vento forte, a sombra que só existe com uma luz, o rio que deságua, a chuva que não cai, a inquietude de todos à espera de um trem. Até meus sonhos têm sido tentativas frutadas de luz e som.
Algo me perturba constantemente. Sinto-me inconfiável, heterogêneo.
Mas persisto. Talvez me encontre em alguém, já que em mim não estou.
--
Também não me falta lápis e meus cadernos continuam empilhados dentro de mim.
Mas é que me sinto tão perdido. Me sinto fora de mim em todo lugar que vá. Mesmo em casa, me sinto deslocado. Não consigo me envolver nas palavras de ninguém, nada mais me surpreende. Os filmes se tornaram entediantes, os livros me ignoram a cada dia, o pôr do sol se queima antes de mim e a lua mal aparece no reflexo dessas ruas sujas.
Não que eu não me interesse. Eu procuro, tento me encontrar em cada viela, mas tudo que eu acho são mentiras, são tentativas forçadas de se envolverem em determinada raça, de se encaixarem em mais uma gaveta. Penso que tudo ao meu redor é virtual. Tudo muito simples e complexo a ponto de passar despercebido por olhos abertos.
Ligo-me então nas trivialidades. O suor que escorre, a lágrima contida, a formiga que tenta sobreviver ao vento forte, a sombra que só existe com uma luz, o rio que deságua, a chuva que não cai, a inquietude de todos à espera de um trem. Até meus sonhos têm sido tentativas frutadas de luz e som.
Algo me perturba constantemente. Sinto-me inconfiável, heterogêneo.
Mas persisto. Talvez me encontre em alguém, já que em mim não estou.
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