sábado, 13 de agosto de 2011

O Homem de várias sombras.

Mês passado ele perdeu três quilos, três anos, o sono, a ânsia e a crença.

Andava olhando o chão, vendo aquele cabelo bagunçado, o reflexo de um óculos barato e os pés grudados aos dele. Não sabia quem era, se o desenho no chão ou o pedaço de carne. São tantas as sombras que chegavam a sua frente, precipitando-se, vivendo pouco mais que o tempo da lua, às vezes sendo três, quatro, muito mais que o parâmetro, vivente de poucas horas, que imaginava ser imortal, deixando a vida ser levada pelas paredes, chão ou tudo que a luz não alcança.

Deixou-se e suas sombras criaram vida.

Elas correm ferindo a qualquer um, fingindo ser tristes, bebendo veneno, cuspindo fogo, negando a si. Degladiam-se. Querem ser cada vez maiores e desfazem-se em pouco tempo. Da mesma forma, multiplicam-se, confundindo a todos, os quais decepcionam-se sempre que vão a um lugar sem luz. A qualquer lugar, na verdade.

Sonham tomar o outro plano, deixá-lo enforcado e preso ao chão e passar a ser felizes comprando, fingindo, fumando. E ele,sem criar resistência, aliás, mortos não resistem, se deixa entregar, mas nunca vai ao chão, como se algo o segurasse, como se seus braços, suas mãos, seu rosto e pernas estivessem presos a uma corda que liga a outras mãos, no alto, e feito um títere vagueia em branco, com seus olhos feridos, suas roupas sem cor, extravasando lágrimas em telas, filmes, músicas e prédios. Não acredita. Aliás, mortos não creêm. Nada que dependa de alguém, em movimentos daqueles ditos superiores, hipócritas disfarçados de livros, herois de cueca sobreposta ao rosto ou agricultores de apartamento. Os livres.

Esse alguém que o conduz, não sabe mais quem é. Acreditava ser alguém, mas ela fugiu. Foi comprar cigarro. Ele sofreu. Aliás, os mortos sofrem. Mas continua preso a alguém. Talvez sejam os pássaros de Saramago. Hitchcock. Talvez às nuvens.

Ou talvez não haja ninguém e ele apenas desistiu.

Mas cuidado, há sombras por onde houver luz.

sábado, 6 de agosto de 2011

Colombina

domingo, 17 de abril de 2011

Personagem 1.

As letras em neon se misturavam à fumaça que saía daquele grupoescuro. É estranho a falta de luz quando a lua está tão próxima. Aliás, é estranho que essa praia não esteja afogada, de novo. Andando nesse calçadão vejo, às três horas da manhã, as prostitutas renegadas e os traficantes depressivos, dando vida à droga. Eles adoram funk.


Do outro lado, vem quem esperava. Ela pergunta se eu tenho horas, digo que não. Ela vai embora. Confundi.


Esperava ela dizer sobre o campeonato amanauense, era o truque, saber sobre o campeonato amanauense, já que nunca tinhamos nos visto. Enfim a encontrei, ela citou as palavras certas, embora fossem tão idiotas [aliás, as palavras certar sempre são idiotas]. Entregou-me o pedido, perguntou se era só isso, respondi que era ela que sabia se era o fim. O diálogo terminou. É isso que acontece quando você tenta dar em cima de alguém com uma cantada ruim. E eu que pensava que ela era do tipo intelectual. Claro, para ela fazer esse tipo de serviço. Tinha que ser. Eu mesmo desconhecia o conteúdo da caixa. Estava lá porque era meu destino estar. E também porque fui pago para tal. Eram os trezentos reais mais fáceis da minha vida. Além disso, uma viagem atrasada ao Rio [nunca tinha voado em um avião][quer dizer, nunca voei] não é sempre que se tem, com direito a amendoim, turbulação e a morte da senhora que estava ao lado. Incrível o que a mistura de coisas tão distantes, amendoim e céu, pode fazer.


Enfim, estava eu com a caixa na mão, a curiosidade na testa, esperando o telefonema.


- Alô.

- Quem fala?

- É o Vítor. E aí?

- É o Vítor. E aí?

- É o Vítor...

- Não pergunto que é, pergunto se deu certo?

- Ah, sim.

- Volta quando?

- Hoje, às cinco.

- Venha correndo, e não abra a caixa.


Pensei em despedir -me, mas não sabia se era conveniente. Tinha de estar no aeroporto. Não dormia havia cinco noites. O motivo não interessa. Mesmo.


Decidi curtir o vento que batia às ondas. Uma hora de folga, pensei em aproveitar a lenda carioca de que tudo ao mar é mais divertido. O mar gostou. Ligou a lua, a maré e me fez cair, de modo a levar a caixa da minha mão. Como se qualquer diabo divino tivesse roubado a caixa e provavelmente minha vida. Com os óculos pintados de areia, descobri que não é seguro ficar muito próximo ao mar. Principalmente quando sua vida é uma merda.


Eu precisava inventar uma história convincente ao provável dono da caixa. Pensei em dizer que os intelectuais que rondavam a praia roubaram-na de mim, mesmo com os traficantes tentando me defender. Achei um pouco pesada. Não havia mais tempo, a caixa já havia se esvaído nos, agora tranquilos, braços do mar.


Pensei em me jogar ao mar. Seria poético.


Minha covardia me fez seguir ao aeroporto, onde, mais uma vez, serviram amendoim. Eles devem achar que somos esquilos. Na chegada, a placa com meu nome estava sendo segurada por alguém com um nome igual ao meu.


Na tua frente, pensei em mais uma história. A polícia havia pego. Achei pouco convincente, tanto quanto a primeira.


Decidi contar a verdade. Ele hesitou. Riu. Chorou. E se matou.


E eu morri. Com cheiro de amendoim. E areia nos olhos.