sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A tatuagem.

Travado no tempo, passou a ser escravo do chá das seis. Não pode sair da tua mesa, cheia de pessoas vazias trocando lugares a todo tempo. Não dorme, se troca rápido. A velha camisa xadrez está rasgada, não há tempo pra trocar os sapatos. A mesa está suja, mas não o suficiente. É preciso mais chá. Ficou assim de tanto servir à sociedade. De tanto se disponibilizar aos outros. 'Fez tanto chapéu que o mercúrio passou ao cérebro'. Diziam os senhores engravatados e as senhoras e seus cães inúteis. Nunca souberam que na verdade, o que possuía dentro de si era tão grande que sobrecarregava-lhe a cabeça. Criava chapéus das mais variadas cores e formas, até ficar sem onde pôr. Passou a vendê-los. E passaram a comprá-los. De maneira cada vez mais compulsiva. O seu amor era tão grande, tua criatividade tão imensa que continuou a fazer, sem perceber que não se importavam com o que sentia, com o que significava aquele monte de pano, aquele monte de fitas, aquele monte de cores. Tua vida passou a ser automática. Não havia tempo para cultivar o que era realmente, o que podia fazer. Era parte de um ritual sadomasoquista, consequência de uma causa alheia a tua vontade. Não era mais. Os chapéus se acabaram, tua tesoura está cega, teus botões não mais cabem e tuas calças estão curtas. O vício que tinha deu lugar ao vício que lhe impuseram ao longo do tempo. Entre as visitas, os clientes, o chá. A frequência foi substituindo tua paixão por algemas quentes, erva-doce, ou mate detro de porcelana fina e biscoitos. Tudo que existia dentro de si foi tirado ou voou com os chapéus. Para preenchê-lo, então [na verdade, para se autopreencherem, pois a bondade nada mais é que compaixão e isso é vazio em mais bruta forma], fizeram se sentir útil de novo.

Servindo chá. Sendo uma história para ser contada.

Um servidor.

E se um dia puder me ver, acene.*

A futilidade de todos os dias tem sido tão incrível que às vezes me passo despercebido.

Simplesmente não me vejo. Muitas vezes não me ouço. E todo dia sinto.

Não me passa pela cabeça nem a vontade de escrever. É como se meu pensamento fosse tão contraditório, que meus dedos se recusassem a pôr em papéis. Sujos, reutilizados. A carta que eu esqueço de mandar, o telefone que esqueci de ligar, o texto que não li, a letra que não escrevi, a imagem que não vi. E quando consigo enfim esboçar algo, apago inutilmente, ficando aquele monte de madeira em pó suja de carbono inútil.

São tantas as desculpas. As mentiras. As verdades constrangidas por dias que surgem, sem ninguém pedir. E eu não consigo. Não dá pra pedir pro sol deixar de raiar ou a verdade deixar de vir.

A maneira é se adaptar. Os dias vão passar, os amigos vão te deixar, o amor vai desabar.

Não que isso seja tristeza inata.

A natureza é assim. A flor murcha, chove, molha, morrem, nascem, partem, chegam.

Sem nunca perguntarem se você existe.

Aliás,