Sempre passo em frente à vitrine.
Sempre vejo o mesmo manequim. Aqueles seus olhos tristes e incômodos; suas mãos frágeis, finas feito galhos secos; seu semblante pálido, sua frieza em dias de calor e sua carência de admiração prendiam-me feito a presa mais fútil da aranha-viúva.
Sempre quis criar uma música para o suporte de roupas. Algo que me contasse o porquê de tanta vida, algo que me dissesse o porquê daquelas peças preto e branco lhe sobrevestindo, me explicasse a ausência do cigarro em sua mão, teu silêncio vazio perante um vidro frágil.
Sempre quis enxergar nela o que mais faltava em mim, dar a ela o que me sobrava.
De certa forma, fazíamos isso.
Ficava toda noite, após o trabalho, admirando seu jeito de 'deixa estar', 'deixe vir'.
E estava, e ia.
As pessoas passavam, os cachorros latiam, os gatos corriam mas eu permanecia estável à tua sinceridade. Quando as estrelas se dissipavam junto ao claro do céu, pensava em minha necessidade de me despedir, e ela sequer resistia, sabia que voltaria no reaparecer das luzes dos postes.
E de fato.
Houve um dia que já não estava lá. Desesperado, batia a parede que me separava de sua mudez, parte dos estilhaços se prenderam a mim e parte deles se dissiparam ao sangue no chão. Um homem apareceu, assustado, dizendo que não tinha mais dinheiro no caixa. Apenas perguntei onde estava. Não houve resposta. Onde está o manequim?Gritei. A figura, confusa, permanecia com seu rosto suado sem reconhecer a pergunta. O manequim que estava na vitrine, onde está? A resposta veio gaguejada. To-tornou-se pó; sua idade evidenciava as imperfeições e precisávamos de novas peças para carregar coleção outono-inverno.
Não houve tempo de dizer mais nada. Corri. Pontes, estradas, vielas e favelas. Nada me reconhecia. Não reconhecia nada. Parei diante de um rio, percebi um olhar familiar.
Voltei.
Com calma, perguntei ao rapaz quando havia acontecido o desmanche da peça de mármore, já que nos encontrávamos no final de julho.
- Início de março. Disse o varão ainda com medo.
Atordoado, sentei no mesmo lugar onde costumava ficar observando o manequim.
O único pedaço de vidro que se manteve preso à parede me explicou tudo.
Nunca havia existido manequim.
Minha necessidade de ter alguém em quem confiar, onde minhas mentiras podiam se tornar verdades cruas, cujo silêncio era minha maior orquestra.
Minha vontade de te ter, te fez nascer.
Obrigado. Parabéns.
domingo, 18 de abril de 2010
domingo, 11 de abril de 2010
Sol.
Eu era areia.
Na verdade ainda sou.
Aqui dentro é escuro. O que escrevo são os únicos feixes de luz que surgem contra meu rosto. Os acordes que formo com meus dedos finos são a única forma de reconstruir pessoas ao meu lado.
A saudade é tanta.
Minha voz, apertada por cordas vocais estreitas, é reduplicada quando grito. O eco me faz pensar que não estou só, que realmente existe um abraço sobre mim. Algo que não me faça tremer tanto, me machucar tanto.
Algo que exista.
Na verdade ainda sou.
Aqui dentro é escuro. O que escrevo são os únicos feixes de luz que surgem contra meu rosto. Os acordes que formo com meus dedos finos são a única forma de reconstruir pessoas ao meu lado.
A saudade é tanta.
Minha voz, apertada por cordas vocais estreitas, é reduplicada quando grito. O eco me faz pensar que não estou só, que realmente existe um abraço sobre mim. Algo que não me faça tremer tanto, me machucar tanto.
Algo que exista.
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