sábado, 19 de setembro de 2009

Carta, segunda.*

Da distância passar a ser maior que os centímetros que nos polarizam.
De tua ausência passar a ser maior que os segundos que você não está aqui.
De teu riso estar chamando outras piadas.
Tuas lágrimas caírem em novos ombros.
Teus versos falarem de algo a mais.
Teu rio se desviar do curso do meu.
Tuas fotos revelarem novos fatos.
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quem tem medo ama.
A nossa música estava bem alta.

Pelo menos dentro de nós estava. Dizem que não houve sequer uma valsa. Não acredite.
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Todas as letras que eu tento enxergar deixam isso mais óbvio. Não consigo acreditar em mais nada. Admiro a capacidade dos escritores em mentirem, dos músicos em enganarem, das vozes a chorarem, da noite ao cair. Mas não me engano mais.

O que existe realmente não está aqui. Está também bem além dessas letrinhas míudas que penduro na porta da geladeira. O real está dentro de você. Está no que você sente e passa a acreditar.

Não importa se teus amigos dizem que você não consegue, se tua vizinha não conhece ninguém que conseguiu, se a tua rua não desemboca no que almeja. Ande, faça, coloque em prática todas as coisas que não te ensinaram, que nunca souberam te explicar ou simplesmente te esconderam.

A gente precisa aprender que o destino não é feito pelo coser de uma senhora de idade, que fica dia e noite costurando fios e fios, teando o final de cada um dos sonhos de todos que dormem.

O destino somos nós. O destino é todas aquelas canções que você esconde na gaveta pra ninguém ler, é todo quadro que você pintou e deixou sob o pano, todo enredo que você escreveu e apagou rapidamente, toda foto nova que voce deixa de revelar, todo sorriso que você deixa de dar por medo de ser feliz.

Faça o que você quer ser. Seja o que quer fazer.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

18 invernos e algumas primaveras.

Amanhã completo dezoito anos.


*Ninguém precisa ler isso. Só vou escrever pra poder ler de novo ano que vem.

Minha infância foi boa. O guri de cabelo à playmobill, tênis desamarrado e pulmão à metade soube aproveitar bem todos os momentos que teve. Pedia histórias na cama, brincadeiras em qualquer lugar e com qualquer pessoa, repudiava aquelas seis cordas vibradas das oito da manhã às dez da noite, pintava papéis e desenhava sol em qualquer dia chuvoso.

Foi ingênuo o máximo que pôde. Adequou-se às normas da igreja, que provavelmente nem sabia o que era uma criança, vestiu-se conforme a moda de teus avós, ouviu o que a rádio tocava, assistiu o que a tevê transmitia e emburreceu.

*Lembro que até o momento que não tive contato com o mundo exterior eu era um piá bem feliz. Não tive muitos amigos até os sete anos. Entrei na escola sabendo ler e escrever. As crianças recortavam As e Bs e eu lia as aventuras de Emília. Garoto prodígio. -N

Foi pro fundamental. Escola grande, listas enormes, teu nome se perdia em meio a tanta gente. A partir de então, descobriu que precisava jogar futebol; usar um tênis de palhaço, sola society hipermegabluster, com adesivos azuis e pretos [vermelho?]; vestir roupas largas e estampadas na vitrine das lojas fixadas no caminho à escola; se apaixonar, enfim, adequar-se ao que todos faziam.

*Nem sabia o que era gostar de alguém. A Ana sabia, a Cláudia também. Mas eu não.

Ficou negro. Passava domingos e domingos correndo num campo onde a grama lembrava o cerrado mato-grossense, deixava momentos com a família para ficar com os amigos [ondeestão?]. No momento que percebeu ter se encontrado, foi o momento que mais se perdeu. Estava ali, entre todos os pontos azuis, com um topete que perturbava a órbita da lua e aquelas calças pula-brejo. Um botão na casa do alfaiate.

*Era horrível, mas me achava O guri da Fioravante.

Teu pai teve de viajar e levou toda a família junto. Relutou. Como ia ficar sem teus amigos, como ia abandonar tudo aquilo que esteticamente conquistou? Foi. Amarrado ou não, foi. Aproximou-se pouco [beempouco] da capital e distanciou-se de Mato-Grosso. Nada mudou. Aliás, descobriu que foi bom. A população da cidade que mal tinha farol se encontrou com um exemplar novo do que era vendido em todas as lojas e aceitou de bom grado.

*Entrei no teatro. Li umas coisas, reli outras. Escutei música. Tinha muito que mudar.

Essa transformação foi a mais lenta possível. Tinha já dezesseis anos e ganhou uma bolsa numa escola particular. Não que merecesse, mas passou a estudar mais. Tentava fugir da sinonímia entre gente inteligente e gente chata [nãoconseguiu,claro]. Vestiu boinas, amarrou uns panos em umas roupas estranhas, tentou mudar o mundo, escreveu um espetáculo, entristeceu-se, riu bastante, bebeu, ficou doente.

*Essa fase foi a mais engraçada. Descobri umas pessoas legais aqui mesmo, onde eu morava. Vizinhos meus havia tanto tempo e eu, cego, não percebi. A gente viajou pelas cinco praças de Álvares Machado, perturbou os carros de som o quanto pôde, fez sombras em circos, tempestades em copo d'água. Nos descobrimos, realmente. Éramos em alguns. Todos se amaram e juraram fidelidade eterna.

No ano seguinte, foi transferido pra uma escola-universidade. Bem mais rígida, conseguiu o destaque que queria. Ao conseguir, queria abandoná-lo. Conheceu muita gente e fugiu delas rapidamente. Foi encontrar quem queria num recipiente de tintas pretas e brancas sugador de mentes e crianças.

*Eu já escrevia. Mal, mas ecrevia. Ela leu e mentiu. Eu me apaixonei pelo sorriso dela. Estava atrasado pro show de blues [cigarros, gente estranha, eu e mamãe] e a gente falando sobre sonho. Eu nunca havia falado sobre sonho. Havia escutado talvez, mas nunca conversado com alguém sobre o que eu sempre quis fazer e sentir. Guria interessante, ponto.

Dezessete anos. Um mês depois, namorando. Um mês depois, o primeiro concurso. Um mês depois, vestibular. Concurso, pro TRT da 2º região, São Paulo. Não sabia nem o que era gabarito, tinha ido pra cidade cinza uma única vez, com teus tios. Dessa vez foi sozinho e assim ficou na Barra Funda por umas três horas.

*Foi um baita de um baque. Eu encontrei prédios que andavam, pessoas-robôs e muita, muita sujeira. A cidade perfeita.

Fez a prova e é claro que foi mal. Quase-gabaritou Português e quase-anulou a parte de Direito. Vestibular, 50 por vaga, Radio e TV, Bauru. Sabia que por mais que tivesse se destacado por onde passou, não conseguiria desbancar 49 cabras que repetiam a prova por uns cinco anos.

*Eu não consigo encontrar meu nome nos dados da UNESP. Das duas uma, ou eu fui mal a ponto deles me banirem do sistema ou eu passei, fui chamado e não vi. Não acredito em nenhuma das hipóteses.

Fim do ano. Ele e a garota-virtual 100por100to 100sual já se comunicavam por telefone. Depois de muitas, muitas noites mal-dormidas. Não foi fácil. Em verdade, foi muito, muito complicado. Se conheceram após doismeses e meio de namoro. No início desse ano.

*Esse ano. Foi o mais dificil da minha vida. Eu li o que provavelmente vocês leram até aqui e descobri que era um fracassado. Passei metade do texto querendo ser igual aos outros e a outra metade ser diferente deles. Como se não bastasse todo meu histórico de perdedor, continuei andando os trilhos a pé. Assisto meu pai chegando exausto todo dia, me tornei a rosa dos ventos do estado de São Paulo, passei boa parte desses nove meses colecionando promessas, fazendo promessas, fiquei desacordado por noites seguidas e dormi dias e dias. Continuo fazendo concurso. Continuo quase-gabaritando português, mas agora já entendo pouco mais de direito. Não posso mais abandonar isso. Estou perto e por mais que seja árduo aceitar ser um aspone, concordar com várias regras que não existem, não posso ser ignorante a ponto de não perceber a proximidade do que preciso.

Amanhã completo dezoito invernos. Tenho muito o que contar, preciso encontrar um final adequado aos meus textos, que quase sempre têm uma parada brusca em seu desenvolvimento, tenho de encontrar as palavras que perdi, tenho de me perder de novo, tenho muito o que escrever.

Tenho muito o que viver.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

MANJA A PORRA DESSA DISTÂNCIA?

Ela não vai acabar com nada.

Sabe aquelas palavras que vivem sendo repetidas? 'Não. Idade.Você não sabe. Na tua fase eu.'

Põe elas na mochila. E foge.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

baile de máscaras.*

Eu não tenho mais fôlego algum.


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já escrevi uns cincotextos. Deleteitodos.
Eu só quero uma coisa. Que chova o dia inteiro.

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Eu tenho medo de qualquer palavra que se vingue de mim.